Não basta enfiar a faca, é preciso rodar




Uma das sutilezas da vida dita civilizada é poder-se matar um sujeito a crédito. Para esta modalidade de crime praticamente não há tipificação penal. Pode-se levar anos a consumar o fato. Mata-se lentamente ‒ como dito, às prestações, aos poucos. Como as tecnologias atuais dão voz a praticamente todos, é possível exercer esse tipo de esporte nefasto mesmo à distância. Com uma conexão de internet fazendo o papel de arco e muitas palavras vagas e cálculos controversos fazendo papel de flechas é possível espicaçar o alvo e atormentá-lo por raiva ou indignação, e ainda posar de bom moço. Ironia e deboche são as setas mais eficazes e certeiras. São delicados requintes de tortura pós-modernos que substituem (não perfeitamente, pois perfeito só Deus!) a gana real que os assassinos de reputação têm de exterminar, extirpar da vida social, em uma palavra feia, “matar” aqueles dos quais, por enquanto, só podem debochar e tripudiar.

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